Participação da Associação Educacional para Consumo Responsável Rede Bem da Terra na 6ª Feira Nacional da Red de Comércio Justo del Litoral (RCJL/Argentina)

Por Maria Laura Marques

Nos dias 6, 7, 8 e 9 de abril, ocorreu a 6ª Feira Nacional da Red de Comércio Justo del Litoral (RCJL/Argentina), na cidade de Rosário, Argentina. O evento que reúne, bianualmente, os integrantes da rede, promovendo o estreitamento entre os conceitos de produtor, distribuidor e consumidor econômico-solidário no país, contou este ano pela primeira vez com a participação de diversos grupos brasileiros. Simultaneamente à Feira, ocorreu um pré-fórum para a construção do Fórum Mundial Temático da Economia Solidária, que irá ocorrer em julho, na XXV FEICOOP, Santa Maria.
A Associação Educacional para Consumo Responsável Rede Bem da Terra participou do evento, unindo-se a uma delegação composta por grupos de outras 6 cidades da grande Porto Alegre, que levavam suas experiências em consumo, produção e arte para agregar aos três dias largos em atividades formativas e de trocas/comercialização. E tratando-se de ‘truques solidários’, a Associação organizou-se para realizar e efetivar uma troca com a rede argentina, de um produto que há tempo almejava-se encontrar proveniente de um grupo de ecosol: azeite! Nessa troca, o grupo argentino encomendou café+castanha de caju e em troca, pedimos azeite+vinhos. Para além dos produtos previstos, pasta de azeitona+erva mate tipo argentina+mistela (vinho licoroso) também foram recebidos.
Os laços da Associação com a RCJL/Argentina já possui alguns episódios anteriores os quais vêm fortalecendo a relação tanto como movimento social, como parceiros de distribuição internacional da produção solidária. Desde julho de 2017, após uma oficina sobre consumo responsável realizada na FEICOOP, junto ao Grupo Araçá/Novo Hamburgo, as primeiras conversas acerca da possibilidade de intercâmbios sistematizados entre os grupos de economia solidária brasileiros e argentinos haviam deixado sobre bases bastante sólidas a projeção de ações possíveis. O nosso café, orgânico e do comércio justo, interessava a eles da mesma forma que o azeite orgânico e da economia solidária nos causava deslumbre.
(Já neste episódio, a RCJL realizou uma primeira e simbólica troca com a Associação Bem da Terra (produtores): Tecidos produzidos por uma fábrica recuperada da Inimbo Red Textil Cooperativa (Argentina), por artesanato do grupo Aparecida/Bem da Terra).
Desde então, o contato foi mantido tendo em vista a possibilidade da visita de integrantes da Red ao Brasil, em setembro/2017. Naquele mês, também sob organização do grupo Araçá/NH, iria ocorrer uma oficina sobre a experiência argentina em que ao fim do dia programava-se a realização de trueques solidarios. Fomos convidados a participar e lá ocorreu pela primeira vez a troca de produtos entre a Associação de consumo e a Red. De Pelotas foi levado café e em troca produtos bastante diversos como Fernet, vinhos tintos e brancos, vinhos especiados, produtos cosméticos, molhos, temperos, artesanato e tecidos foram trazidos – o azeite não estava disponível naquele período.
A 6ª Feira da Red, em Rosário, já estava no horizonte neste encontro em Novo Hamburgo. Quase seis meses depois, as articulações para a ida do nosso grupo ao evento tornou-se uma intensa rotina ao GT Provisão. Era preciso que os produtos encomendados pela Red (o café e castanha de caju) estivessem em nossas mãos antes de partirmos, em qualidade e quantidade. Ao fim, aproximadamente US$1050,00 em produtos foram intercambiado entre as redes, e ao fim do evento, $40.000,00 pesos argentinos em produtos haviam sido trocados entre a RCJL/Argentina e os grupos brasileiros. Em dólares cerca de US$1.944,00. Informação essa a qual foi recebida com grande vibração dos presentes na plenária final do Pré-Fórum Mundial Temático da EcoSol.
E nesta costura de acontecimentos, não há alinhavado sem nó: em julho/2018, dentre os dias 12 e 15, o grupo hermano virá para a Feira de Santa Maria, onde uma vez mais será possível agregar pano nesta peça que está unindo a economia solidária da terra prateada ao sul brasileiro. Segue algumas fotos destes intensos dias de imersão na construção de um mundo hasta el buen vivir.

Adendos:

> A XXV FEEICOP irá ocorrer nos dias 12 a 15 de julho, em Santa Maria. O Fórum Mundial Temático de EcoSol tem como tema “Construindo a sociedade do bem viver: por uma ética planetária”. Após todas as experiências vividas no final de semana em Rosário, tem-se o indicativo que seja realizado oficinas com o tema “Prossumidor”, destacando a importância de que as duas pontas, produção e consumo, estejam ligadas na mesma lógica econômica solidária.

> Os “trueques solidarios” ou “troca entre pares” são uma prática bastante importante da RCJL que a primeiro momento pode parecer difícil captar sua ideia, mas que seus resultados as tornam totalmente significativos.
Opera-se levando em consideração duas esferas e momentos: a da produção direta (grupos produtivos que geram insumos ou produtos finais) e nós-de-distribuição (Armazéns espalhados pela costa argentina, como Buenos Aires, Rosário, Cafayate) que ficam responsáveis pela comercialização dos produtos dos primeiros. Os grupos produtivos fornecem seus produtos para o armazém mais próximo de sua região, e neste momento, ocorre a comercialização do produto ao valor que o produtor determinou e agrega-se apenas o custo de transporte (que dada a localização próxima, costuma ser baixo). Logo, abastecidos os armazéns, comercializa-se os produtos adicionando-se 25% do valor determinado pelo produtor para os custos de operação do espaço (tal qual é na Feira Virtual). Em um segundo momento, os armazéns distribuem as produções locais para os outros armazéns da Red, que muitas vezes não possuem toda a diversidade disposta em sua região. Essa distribuição é que são as “trocas entre pares”, e nesta esfera não há moeda envolvida, apenas os produtos, agregados do seu custo logístico (no geral 5% do valor total). Não há excedente, lucro, nestas trocas e a sua importância reside em: (1) Permitir viabilizar diversificação da oferta solidária sem que para isso seja preciso um alto recurso monetário disponível, ampliando a demanda dos grupos produtivos, (2) os custos logísticos são reduzidos, uma vez que a ligação entre os nós permite que se otimize o escoamento da produção de forma escalar (cada nó custeia o valor de frete referente a região do nó mais próximo na Red) (3) o preço final ao consumidor, por sua vez, também se reduz significativamente. E em um quarto momento, não menos importante, al revés, isso promove um fluxo e acumulação de recursos na economia solidária da região em grandes dimensões. Ou seja, a economia solidária produz, distribui e consome os produtos, insumos e tecnologias da economia solidária, e em cada vez maiores escalas.

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